19 julho, 2006

a traça digital devora o pátio, sem remorso.
últimos suspiros?

14 julho, 2006

adélia, mulher de verdade*

ANTES DO NOME

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás",
o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

(*) espantado e feliz, acabo de ver, pela Globonews, entrevista com nossa poeta maior. Para ela, poesia é tremor, pulsação. E com Santo Irineu, sabe que a glória de Deus é o homem vivo. Por essas e por todas as outras, é que Adélia me dispara o coração. Por isso amamos Adélia.

05 julho, 2006

rescaldo da copa

atacante livre rumo à pequena área
só um beque em seu caminho
torcedor aos gritos, no alambrado:
- Ilude ele, ilude ele!

(*) fato real, Jaconi, contado por meu amigo Lionço

30 junho, 2006
















Vamos mendigar pelo pão
pelo milho, pelo mel
pelo mascavo, pelo favo
Mendigar pelo ócio
Ócio de puro estado mórbido
Estado de amor mudo.



Foto de
Marilia Gomes

22 junho, 2006

Micro Conto n°9 " A Despedida"

(Covent Garden / London - foto de Angélica Bélica)

Comemoravam Bodas de Ouro, 50 anos de casados.
Ele com 75, ela com 74.
Ao fim dos festejos beijou-lhe a testa e se foi...com a roupa do corpo.
Partiu com ânsias de conhecer um mundo.

( ...é tudo mentira ! Apareçam por lá. )
http://www.eujuroetudomentira.blogspot.com

14 junho, 2006

,

13 junho, 2006

*



A vida pode ser o que é, mas isso não é desculpa para não pôr a melhor gravata.


(*) João Pereira Coutinho, ontem, na Folha.

07 junho, 2006

Coração na ponta dos dedos

Os chãos, os tetos, as luzes e as sombras do Teatro Municipal, meu filho João Caetano – e o público - testemunharam noite de ontem a performance afetuosa e habilidosa de um trio de músicos que não deve nada a ninguém, nem daqui nem de fora: Léo Ferrarini, ao piano, Fábio Alves, no baixo elétrico e acústico, e Marcinho Pereira na bateria e percussão, no lançamento do CD “Batedô”, de Léo Ferrarini, trabalho financiado pelo Fundoprocultura e gravado ali mesmo alguns poucos meses antes, take a take, como os antigos e seminais discos de jazz.

O que se ouviu foi música instrumental calcada em jazz de primeira grandeza, fazendo jus às influências declaradas do pianista na obra de Heitor Villa-Lobos (estava lá o “Trenzinho Caipira”) e Egberto Gismonti (de quem tocou tema centrado em “Forrobodó”) e – pude confirmar minha suspeita conversando com Léo, após o show e durante o vinho – na maravilhosa contribuição do talvez maior dos pianistas de jazz de todos os tempos: o genial Bill Evans.

Parênteses aqui. Léo detém aquela relíquia que faz falta àqueles que só possuem técnica: tem coração, alma, afeto que se evola dos dedos e acaricia o chiaroscuro do piano, daí minha suspeita de que a luz de um Bill Evans pairasse liricamente no ar por sobre nossos chapéus. Dizia-me a amiga Monica Montanari, contribuidora deste blogue aqui, quando o pianista ficou sozinho no palco, que “agora ele esqueceu do show, só está curtindo”. E que honra pra nós poder compartilhar da curtição do artista, público que saiu – pelo menos aqueles com quem conversei – extraordinariamente feliz e tocado pelas mãos sensíveis do trio.

Uma palavra sobre o CD: como se poderia esperar de um trabalho de tão fina tessitura poética, o encarte está primoroso, com a temática do coração e o trabalho gráfico – que foi projetado no palco durante o show - em sintonia com a qualidade da obra musical.


Fábio - já o tinha ouvido antes com Oscar do Reis (que participa também de “Batedô”) e em seu trabalho em rock progressivo - segue em sua trajetória luminosa, com seu contrabaixo luxuoso e de extrema qualidade técnica. E Márcio, uma grata surpresa para nós, porém não para Ferrarini, que o definiu como portador de um talento fora do comum. Foi o que vimos, no mais, dos três músicos à nossa frente.

Esta é uma Obra mesmo, com letra maiúscula. Isso o que esses músicos de primeira grandeza, repito, trazem pra esse nosso tonto mundo, e pra nossos corações desejosos de leveza, alegria e boas vibrações.

Parabéns, Troian e Renata, pelo feito!

Evoé, Léo, Fábio e Márcio! Gracias por existirem!

As fotos são de celular, daí talvez sua baixa resolução, mas são, por assim dizer, de coração.

04 junho, 2006

resposta-sanduíche pelos teus 38*

do outro lado, o velho marco,
hippie-lebowski, uruguaianense do mundo,
criticando a moça do ai-ai-ai
à margem fico eu,
sem ter como retrucar às suas eruditices,
os seus modos de implicar
na próxima, capricha, meu velho
não faça troça de vanessa,
desvela tua escuta peculiar.
assume, em tuas doses homeopáticas,
em teus poemas confessionais,
em tuas adoráveis digressões enigmáticas
grita alto e sem receio:
sim, eu confesso!
também gosto de pastiches.
* parabéns, amigo. meu melhor abraço.

02 junho, 2006

o tempo passa, nos aniquila, nos arrebata...*

mas eu continuo achando muito chata
a tal da vanessa da mata.

aiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaaaaaaai.

(*) para minha amiga duelista de plantão e parceira de mais de 518 músicas, Camila Cornutti.

.

aqui agora também.

31 maio, 2006

- Tu vai me morder, eu sei!
- Morder?...Mas é só um beijo !?!
- É sempre assim, começam pedindo a mão, o braço, depois um beijo e já vão querendo o resto...
- Deixa de ser neurótica, eu não mordo, não dou choque!
- Neurótico é você, não pode ficar só ao meu lado, juntinho, me olhando...sem beijo.
- Mas é que eu tenho desejos.
- Controle-os.
- Um beijo.
- Não dou.
- Que saco, vou embora, não me ligue mais...me esqueça, tenho mais o que fazer, e pensar que deixei a tarada da Silvia por tua causa...eu sabia que esse corpão todo escondia uma frígida neurótica...merda.
- Espera. Que tu disse?
- Isso mesmo, "FRÍGIDA, NEURÓTICA" !
- Nunca ninguém me chamou assim...
- E tem mais...
- Pára, cala a boca...me abraça e me beija !

25 maio, 2006

angélicabélica/augustonesi

24 maio, 2006

Odegar in the backyards*

Gringuinha
Minha coloninha
Um r não faz falta
Mas você faz!

(*) mais um do P(o)etry!

23 maio, 2006

Conversa de jogo de botão*


Ó, coisas suaves, onde foram, com o vento, se esconder?
Nos parapeitos de Porto Alegre, disse o celofane.
Nos rodapés altissonantes, disse a folha de plátano.
Nas soleiras dos casarios que já morreram, disse a aquarela.

Ó, coisas levianas, onde foram, com as águas, naufragar?
Nos caderninhos de pintar de peter pan, disse a tampinha premiada de mirinda.
Nas água-fortes e lupanares e ritornelos das mil arábias,
disse o vizir embriagado de xerez ou de nanquim.
Nas madeirames e nos arames dos alçapões e das arapucas,
disse o azulejo desdentado do império russo.

Ó, coisas tão finas, onde foram, com as luzes, perpetrar?
Nas guelras dos anjos, disse o gris cipreste.
Nos nervos da chuva, disse o contraforte.
Nas paineiras ensandecidas de lua, disse o gerente da tempestade.

À gol!

(*) perdoem o delírio súbito e inevitável, nessa tarde que é uma gélida estalagmite. Sigo inédito com meu "Anel Postiço em Merengue" (Os de Lourdes, 2006), um rosário interminável de editoras dizendo que poesia não.


ofragòtof ed êlbud










!êlagiO

Se subitamente você me quiser, as coisas não serão iguais. Já tinha me acostumado a te ter com outras mais.

12 maio, 2006

Micro Conto n° 8 " O Proxeneta"

- Humm...deixe-me ver!
Sim, sim...dentes hígidos, tez clara, personalidade hierática...Levem-na, é ideal para o clérigo. Próxima !

Eu tenho muito a te dizer, mas me calo. Tenho considerações importantes, mas você se esquece que preciso de sua atenção. Tenho um encontro diário com você, mas te vejo apenas quando tu queres. Te recebo com os olhos nostálgicos que até então não os tinha. Carrego uma sacola de ovos no ônibus e você esbarra nela sem se importar com o meu cuidado para com eles. Se queres, meu querido, esperarei por tua felicidade. Esperarei para te ver soluçar em felicidade. Daquelas que o peito arrebenta e as sensações de tristeza se perdem. Quero te ver como quem nunca te viu. Permito, assim, a surpresa de ver a felicidade explodindo em ti. Como um fato novo na sua vida. Como o que pode ser eterno em mim: teus olhos de onça sorrindo de manhã.

09 maio, 2006

Poema quase edipiano para minha mãe


Ela veio em minha direção com seu sorriso encantado.

Ela me pegou pra sempre no colo, as roupas tenho amarfanhadas disso.

Ela faz sempre um risoto abençoado aos domingos.

Ela me disse que eu podia errar até achar o jeito.

Ela me disse: vai, sê anjo insone, meta os peitos!

Ela me disse que aquela camisa ela lavou e já vai estar.

Que aquela fúria um dia vai se acalmar.

Ela me viu assim ansioso e se disse preocupada.

Que só olhar de mãe deixa a alma empenada.


Ela tem várias rugas de alegria

e tem uma tosse que eu suspeito há trinta anos que é alergia

e nunca consegui tratar.

Que pulmão de mãe a gente ouve o bafejar.


Ela tem uns mil desejos mal-crescidos

e uma voz de lua ao telefone.

Ela fica longe, não me liga, faz que some.

Mas está alviçareira aqui comigo.

Que ouvido de mãe ouve inclusive o não do filho.

Ouve inclusive o ranger do chão nas solas do filho.

Ouve inclusive o sol nascer na dor do filho.


Ela veio em minha direção com seu sorriso encantado,

Seu Mal de Chagas, seu sono acordado

e costurou o dinheiro em meu bolso quando fui pra Porto Alegre fazer vestibular.

Que mão de mãe costura tudo, até botões que nunca terão casa,

até ferida que não quer serenizar.


Ela foi a minha professorinha

A minha enfermeira, minha pastora

ela foi minha polícia, minha cantora

de milongas e valsinhas a noite inteira.


Ela me disse que eu podia errar até achar o jeito

esse meu jeito de amar a ela meio sem jeito.

Que luz de mãe não faz o sol nunca faltar.