
14 outubro, 2007
21 junho, 2007
limpando a poeira

Inverno
No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá não sei
Caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no leblon é quase glacial
Há algo que jamais se esclareceu
Onde foi exatamente que larguei
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei
Lá mesmo esqueci que o destino
Sempre me quis só
No deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar
Não sei o que em mim
Só quer me lembrar
Que um dia o céu reuniu-se à terra um instante por nós dois
Pouco antes de o ocidente se assombrar
06 outubro, 2006
16 agosto, 2006
Pra uma tarde fria e chuvosa aqui

RAMILONGA
Vitor Ramil
Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais
Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Sobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca mais
O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
O tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca mais
Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais
Do Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais
08 agosto, 2006
14 julho, 2006
adélia, mulher de verdade*
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás",
o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
(*) espantado e feliz, acabo de ver, pela Globonews, entrevista com nossa poeta maior. Para ela, poesia é tremor, pulsação. E com Santo Irineu, sabe que a glória de Deus é o homem vivo. Por essas e por todas as outras, é que Adélia me dispara o coração. Por isso amamos Adélia.
05 julho, 2006
rescaldo da copa
só um beque em seu caminho
torcedor aos gritos, no alambrado:
- Ilude ele, ilude ele!
(*) fato real, Jaconi, contado por meu amigo Lionço
30 junho, 2006

Vamos mendigar pelo pão
pelo milho, pelo mel
pelo mascavo, pelo favo
Mendigar pelo ócio
Ócio de puro estado mórbido
Estado de amor mudo.
Foto de
Marilia Gomes
22 junho, 2006
Micro Conto n°9 " A Despedida"
(Covent Garden / London - foto de Angélica Bélica) Comemoravam Bodas de Ouro, 50 anos de casados.
Ele com 75, ela com 74.
Ao fim dos festejos beijou-lhe a testa e se foi...com a roupa do corpo.
Partiu com ânsias de conhecer um mundo.
( ...é tudo mentira ! Apareçam por lá. )
http://www.eujuroetudomentira.blogspot.com
14 junho, 2006
13 junho, 2006
*
A vida pode ser o que é, mas isso não é desculpa para não pôr a melhor gravata.
(*) João Pereira Coutinho, ontem, na Folha.
07 junho, 2006
Coração na ponta dos dedos
Os chãos, os tetos, as luzes e as sombras do Teatro Municipal, meu filho João Caetano – e o público - testemunharam noite de ontem a performance afetuosa e habilidosa de um trio de músicos que não deve nada a ninguém, nem daqui nem de fora: Léo Ferrarini, ao piano, Fábio Alves, no baixo elétrico e acústico, e Marcinho Pereira na bateria e percussão, no lançamento do CD “Batedô”, de Léo Ferrarini, trabalho financiado pelo Fundoprocultura e gravado ali mesmo alguns poucos meses antes, take a take, como os antigos e seminais discos de jazz.
O que se ouviu foi música instrumental calcada em jazz de primeira grandeza, fazendo jus às influências declaradas do pianista na obra de Heitor Villa-Lobos (estava lá o “Trenzinho Caipira”) e Egberto Gismonti (de quem tocou tema centrado em “Forrobodó”) e – pude confirmar minha suspeita conversando com Léo, após o show e durante o vinho – na maravilhosa contribuição do talvez maior dos pianistas de jazz de todos os tempos: o genial Bill Evans.
Parênteses aqui. Léo detém aquela relíquia que faz falta àqueles que só possuem técnica: tem coração, alma, afeto que se evola dos dedos e acaricia o chiaroscuro do piano, daí minha suspeita de que a luz de um Bill Evans pairasse liricamente no ar por sobre nossos chapéus. Dizia-me a amiga Monica Montanari, contribuidora deste blogue aqui, quando o pianista ficou sozinho no palco, que “agora ele esqueceu do show, só está curtindo”. E que honra pra nós poder compartilhar da curtição do artista, público que saiu – pelo menos aqueles com quem conversei – extraordinariamente feliz e tocado pelas mãos sensíveis do trio.
Uma palavra sobre o CD: como se poderia esperar de um trabalho de tão fina tessitura poética, o encarte está primoroso, com a temática do coração e o trabalho gráfico – que foi projetado no palco durante o show - em sintonia com a qualidade da obra musical.
Fábio - já o tinha ouvido antes com Oscar do Reis (que participa também de “Batedô”) e em seu trabalho em rock progressivo - segue em sua trajetória luminosa, com seu contrabaixo luxuoso e de extrema qualidade técnica. E Márcio, uma grata surpresa para nós, porém não para Ferrarini, que o definiu como portador de um talento fora do comum. Foi o que vimos, no mais, dos três músicos à nossa frente.
Esta é uma Obra mesmo, com letra maiúscula. Isso o que esses músicos de primeira grandeza, repito, trazem pra esse nosso tonto mundo, e pra nossos corações desejosos de leveza, alegria e boas vibrações.
Parabéns, Troian e Renata, pelo feito!
Evoé, Léo, Fábio e Márcio! Gracias por existirem!
As fotos são de celular, daí talvez sua baixa resolução, mas são, por assim dizer, de coração.
04 junho, 2006
resposta-sanduíche pelos teus 38*
02 junho, 2006
o tempo passa, nos aniquila, nos arrebata...*
a tal da vanessa da mata.
aiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaaaaaaai.
(*) para minha amiga duelista de plantão e parceira de mais de 518 músicas, Camila Cornutti.
31 maio, 2006
- Tu vai me morder, eu sei!- Morder?...Mas é só um beijo !?!
- É sempre assim, começam pedindo a mão, o braço, depois um beijo e já vão querendo o resto...
- Deixa de ser neurótica, eu não mordo, não dou choque!
- Neurótico é você, não pode ficar só ao meu lado, juntinho, me olhando...sem beijo.
- Mas é que eu tenho desejos.
- Controle-os.
- Um beijo.
- Não dou.
- Que saco, vou embora, não me ligue mais...me esqueça, tenho mais o que fazer, e pensar que deixei a tarada da Silvia por tua causa...eu sabia que esse corpão todo escondia uma frígida neurótica...merda.
- Espera. Que tu disse?
- Isso mesmo, "FRÍGIDA, NEURÓTICA" !
- Nunca ninguém me chamou assim...
- E tem mais...
- Pára, cala a boca...me abraça e me beija !
25 maio, 2006
24 maio, 2006
Odegar in the backyards*
Minha coloninha
Um r não faz falta
Mas você faz!
(*) mais um do P(o)etry!
23 maio, 2006
Conversa de jogo de botão*
Ó, coisas suaves, onde foram, com o vento, se esconder?
Nos parapeitos de Porto Alegre, disse o celofane.
Nos rodapés altissonantes, disse a folha de plátano.
Nas soleiras dos casarios que já morreram, disse a aquarela.
Nos caderninhos de pintar de peter pan, disse a tampinha premiada de mirinda.
Nas água-fortes e lupanares e ritornelos das mil arábias,
disse o vizir embriagado de xerez ou de nanquim.
Nas madeirames e nos arames dos alçapões e das arapucas,
disse o azulejo desdentado do império russo.
Nas guelras dos anjos, disse o gris cipreste.
Nos nervos da chuva, disse o contraforte.
Nas paineiras ensandecidas de lua, disse o gerente da tempestade.
À gol!
(*) perdoem o delírio súbito e inevitável, nessa tarde que é uma gélida estalagmite. Sigo inédito com meu "Anel Postiço em Merengue" (Os de Lourdes, 2006), um rosário interminável de editoras dizendo que poesia não.






