18 abril, 2006



Roubo versos
desavergonhadamente
como quem toma emprestado um lápis do colega
e não devolve ao passar dos dias
como quem quer escrever rabiscos pela vida afora
mas não tem apontador

17 abril, 2006

Cidade Bossa lança sua programação inaugural

Seguindo as dicas do Diogo, envio aí a programação bacana do Cidade Bossa aqui em Porto Alegre. Tem shows aí que não dá pra perder.

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O projeto Bossas Brasileiras apresenta música de boa qualidade em shows nacionais
Grupos de Porto Alegre estão na agenda da nova casa de espetáculos da cidade

O Cidade Bossa apresenta sua programação para o primeiro semestre. Dentro do projeto intitulado Bossas Brasileiras, shows nacionais de muita qualidade e diversidade. Também a produção local está sendo cuidadosamente escolhida..

Entre o jazz (tradicional e contemporâneo) e mpb em todas suas variações (chorinho, samba, etc.), o Cidade Bossa programou para o primeiro semestre shows de Arrigo Barnabé e Tetê Spíndola, Edu Lobo, Cida Moreyra, Jards Macalé, João Donato, Robertinho Silva e Luis Alves. Na programação local, também nomes de peso e qualidade: Paulo Dorfmann Trio, Jua Ferreira Trio, Luizinho Santos e Bethy Krieger e, ainda, uma programação diversificada aos domingos.

Sob a coordenação de Jair Quevedo, proprietário do restaurante Lugar Comum e da Sala Jazz Tom Jobim, espaços que fizeram história em Porto Alegre na década de 80, o Cidade Bossa veio para ficar. No cardápio drinques longos e curtos e os petiscos que eram servidos na antiga Sala Jazz, como o tradicional aipim frito da casa, iscas de filé grelhadas, coração de frango flambado e provolone à milaneza.

Os shows nacionais serão sempre nas terças, quartas e quintas. Confira a programação:

Projeto Bossas Brasileiras
Os ingressos custarão, em média, 40 reais

Dias 18, 19 e 20 de abril - Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola
Dias 9, 10 e 11 de maio – Jards Macalé
Dias 6, 7 e 8 de junho - Edu Lobo
Dias 4, 5 e 6 de julho - Cida Moreyra
Dias 8, 9 e 10 de agosto - João Donato, Robertinho Silva e Luis Alves

Demais shows
Ingressos a 7 reais
Quintas-feiras - Luizinho Santos e Bethy Krieger
Sextas e sábados - Paulo Dorfmann Trio

Cidade Bossa
Rua Otávio Corrêa, 35 – Cidade Baixa
Horário de funcionamento: das 20h às 2h
cidadebossa@gmail.com

Unimúsica - 2006


O Unimúsica de 2006, promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, completa 25 anos este ano. A programação do projeto estará em breve aqui, os shows acontecem no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre. Adianto algumas atrações:

- 4 de maio - Velha Guarda da Portela. Promete ser um grande show...
- 1º de junho - Os violeiros Paulo Freire e Manoel de Oliveira mostram a tradição da viola do sertão...
- 6 de julho - O flautista Carlos Zens e grupo apresentam manifestações folclóricas do Rio Grande do Norte como auto do boi de reis, caboclinhos e cocos
- 3 de agosto - O Quarteto Maogani e o cantor Renato Braz vão tocar antigas modinhas das serenatas brasileiras... IMPERDÍVEL!!!!
- 24 de setembro - Siba e a Fuloresta trazem a ciranda e o maracatu rural da zona da mata pernambucana
- 5 de outubro - O Quartchêto, premiados com quatro troféus Açorianos 2006 e o gaiteiro Gilberto Monteiro mandam ver no chamamé, na rancheira e no vanerão. Vale a pena conferir!
- 11 de outubro - Unimusiquinha com Banda de Marchinhas Tradicionais Amigos do Sílvio, fazendo uma folia carnavalesca para público infantil. Às 10h e às 15h, com entrada franca
- 9 de novembro - Baile de Carnaval com as marchinhas clássicas dos anos 30 e 40 com direção do compositor Nelson Coelho de Castro, comentários de Arthur de Faria e Juarez Fonseca, arranjos de Cristóvão Bastos, Toneco da Costa e Luizinho Santos e a participação de Jussara Silveira e Mônica Tomasi, Mário Carvalho, Alex Jardim, Humberto Rosa, Fernando do Ó, Giovani Berti e Ricardo Arenhaldt

13 abril, 2006

Sim

...mas não procures entender-me, faze-me apenas companhia.
Sei que tua mão me largaria, se soubesse.
Clarice Lispector- Paixão Segundo G.H
...e como é fértil um corpo com sombra

05 abril, 2006

Arrepio*


Unhas no isopor
torpor sem sol
Dentes rangem serrados
como giz no quadro negro
Áspero sigo no estriado
O trem no trilho
Atrito
faisca
Chão de cascalho
sapatos de alpinista
Chuva de pedra
teto de zinco
frágua

(*)contibuto do amigo Petry, também conhecido no Bairro Rio Branco como Seu Odegar, grande amigo, grande cara, vasta alma. Ao que tudo indica o amigo está a preparar seu primeiro livro-sólo. Ilustra esse postado aqui: Pollock.

29 março, 2006

qual teu Deus, poeta?*


poeta, qual o teu Deus?

tem duas faces e um nome
e um disfarce sem nome
tem quatro letras insones
que brilham no céu dos homens

qual, poeta,
teu Deus de hoje?


como faz o que te crie
em papel de almaço velho
riscado a caneta bic
ou o impresso aos excessos
numa esquina do Iraque

qual teu Deus, poeta?

o me acuda o me salve
ou me livre ou me guarde
mas não me torne cobarde
se não Te vejo nos ramos
das oliveiras postiças
que vigem nas megastores
sem que a Virgem evapore
da lágrima dos reclames?

mas o teu Deus
de hoje?


o te proteja e acompanhe
o que me é grande e te pague
um Deus de corda e arame
velame cedro alabastro

um Deus que é preso no espelho
ou um Deus solto no espaço
esse o teu Deus de hoje

um Deus suspenso no vento
de mil voragens mostarda
se eu quero que Deus me queime
mas eu não quero fogueira
se eu quero que Deus me arda!

mas não quero Torquemada.

(*) espero que os colaboradores do blogue e os contumazes comentadores de plantão respondam a essa Provocação que lhes faço, e, bem, falemos um pouco Disso. Se preferirem, todavia, falemos da janta. Ou ambos.

28 março, 2006

JÁ ME BASTA (Bruno Batista)

POR QUE HABITAS O MEU COBERTOR
EU NEM DOU CONTA DE ME DORMIR
DE QUE SONHOS PEGASTE HORROR
QUE É PRA EU NÃO BULIR

FOI UM ANJO QUE TE VISITOU
E CISMOU DE TOCAR UM FLAUTIM
NÃO ME DIGAS QUE É COISA DE AMOR
QUE AMOR SÓ DÁ EM MIM

QUE BANDEIRA TU TRAÍSTE
E INSISTE EM SER MEU INVASOR
ENTENDA, EU PERTENÇO A OUTRA CASTA
A MORTALHA DO AMOR JÁ ME BASTA
DEIXE EM PAZ MINHA DOR

POR QUE GUARDAS O MEU CORREDOR
EU NEM TENHO A CONTA DE PARTIR
DE QUE TERRAS GARRASTE PAVOR
QUE É PRA EU FUGIR

TERÁ SIDO SOM DE CAÇADOR
OU QUEM SABE FALTOU MOCASSIM
NÃO ME DIGAS QUE É COISA DE AMOR
QUE AMOR SÓ DÁ EM MIM

QUE BANDEIRA TU TRAÍSTE
E INSISTE EM SER MEU INVASOR
ENTENDA, EU PERTENÇO A OUTRA CASTA
A MORTALHA DO AMOR JÁ ME BASTA
DEIXE EM PAZ MINHA DOR


Xará de Meireles, Cecília, e o que não posso esquecer de comprar para o “gurizinho”, leite. Foi assim que fiz para não esquecer esse nome, Cecília Leite. Havia acabado de escutar “já me basta” na rádio, eram 18:30, estava voltando pra casa e escutando a FM Cultura. Realmente essa música me chamou a atenção, “vocês acabaram de ouvir Cecília Leite, de Bruno Batista
, já me basta”. Pensei, que cantora é esta... e quem é esse compositor...

No outro dia pela manhã anotei em minha agenda seu nome e fui trabalhar. A anotação ficou pulando de folha em folha, dia a dia até que tivesse um tempinho livre para pesquisar na internet . Pouco encontrei a respeito dela, mas consegui escutar aqui um pouco.

Adquiri o cd e tive a prazerosa surpresa de ser bem melhor do que eu imaginava, realmente é um grande trabalho de estréia dessa cantora que promete. Repertório, arranjos (Alberto Farah e Leandro Braga) e interpretações belíssimas.

Destaque também para “dis-mois comment”, inédita versão para “eu te amo” de parceria com Tom Jobim, feita e cantada pelo próprio Chico no cd, com Benjamim Taubkin no piano.

Bruno Batista (autor da canção citada) é um jovem compositor de São Luís – MA, está com 25 anos, já gravou um cd em 2003 e atualmente reside no Rio. É bom ficar atento para este nome.

Para aqueles que passeiam por esses pátios, aí vai a dica.
Esse blogue agradece a gentileza e persistência e presteza do amigo Mauro Kardel Hött, que se debruçou sobre a parafernália criptográfica em estado de coma e ressuscitou a estes nossos pátios aqui. Grande Mauro!

Contínuo

deixe o quarto como está
deixe a porta na janela
o lustre sobre a cama
o único retrato na saudade
deixe o armário aberto
com a poeira daquele dia em que segurei na tua mão
e te levei daqui
deixe o quarto como está
e não esqueça a nossa casa

27 março, 2006

uma balada para Loreto*


em algumas horas a cidade vibra
como uma moela dentro de uma cuba

como o fremir de uma rotativa


são lá seis horas e já se desabam
os primeiros ônibus
sobre as ruas
e são vários e violentos
os rugidos de motores
na garganta de motoristas sonolentos

é lá meio-dia e já fustigam seus açoites engraxados

os pedais das bicicletas, os elevadores

as mãos de metal cinzapálido dos corrimões

onde outras mãos rosapálidas fraquejam ou não

mas tudo ruge

ensolarado e rude

tudo ruge


cinco da tarde e já são horas

dos passos reboarem nos cordões de calçada
nas passarelas, nos viadutos, nas paradas de ônibus

os passos de dentro como se aos pedaços caminhassem corações

por sobre a laje o lodo a pátina e o piche

e a falsa pedra e o falso piso decorflex tangido
pelas rodas escuras das macas
e pelas solas dos sapatos
de criaturas rosapálidas, cinzapálidas
crisálidas de aço, flébeis, que vão e vêm

no rumo de suas casas, de seus quartéis,

até o genuflexório nosso de cada dia

até o gesto inato de morder o pão

de espantar as moscas
espanar casacos
até que chegue a violeta hora


e tudo vibrará às vinte e três

na saída das escolas

nos postos de gasolina
nos semáforos

e em outros tantos lugares inexoráveis e ingênuos

e então tudo irá se perdendo

tudo a se esboroar

sem sufoco

até que se ouça tampouco
nem só
o silêncio do desenrolar de uma gavinha
tarde da noite

nos vinhedos longe
em Loreto

(*)in: Anel Postiço em Merengue, Anzol da Lua Editores, bairro de Lourdes, Terra.

24 março, 2006

sim, o blogue voltou.

20 março, 2006

Aquele rapaz de olhos oblíquos de pele tostada de expressão hermética
Ele parece ter ido a Cuba, mas só carrega no peito um ideal como o meu.

Aquele rapaz de cuia e sem botas e shorts branco
Ele parece carregar as donas e as mucambas no coração, mas só acredita no amor que ainda não teve.

Aquele rapaz de desconhecidos encontros e substanciais enigmas
Ele corre à margem, mas só encontra ele mesmo refletido n'água.

Eu só observo e tiro algumas conclusões possivelmente falsas.

Porque aqui faz calor e eu durmo sem roupas e acordo cedo com a janela escancarada, deixando o sol na cara me deixar transtornada logo pela manhã.
Porque hoje o trem quebrou e eu conversei com tanta gente diferente que de repente não sabia mais quem eu era e onde estava.
Porque eu escuto John Coltrane enquanto tomo um suco de limão e penso que a vida pode sim ser refrescante em tantos sentidos.
Porque há pouco eu aprendi o conceito de intuição, de virtualidades e do devir e isso, de alguma forma, já mudou tanto do que eu achava que sabia.
Porque nesse momento a tarde cai, minha roupa seca no varal e eu sinto saudades de certas coisas, daquelas saudades boas de se sentir.
Porque eu já não sou quem eu era ontem, porque eu já não sou quem eu era agora, porque alguém me liga e eu percebo que sim, eu simplesmente sou.
Porque imaginar o final de semana traz gosto de merecimento, porque minha preguiça passou e porque se permitir é tão incrível quanto Neil Armstrong pisar na lua.
Porque já dá pra ver a lua, porque amanhã é sexta-feira, porque eu gosto de cortar a unha e roer logo em seguida.
Porque descobri o quão legal uma criança pode ser, porque laços não se quebram, porque minha casa nova é agora a minha casa.
Porque o cinema já existia antes do cinema, porque champignon e pão preto é o que tenho na geladeira, porque o suor escorre nessas tardes de verão.
Porque talvez tantas coisas, porque talvez tantas outras, porque a incerteza seduz, porque é bom à meia luz.
Porque meu olho se cerra no momento em que encerra a plenitude dos dias.
Porque esse é um tempo espantosamente e deliberadamente otimista.
Porque me convenci.
A única coisa que vai se eternizar é o afeto.
* a foto é uma colaboração especial da minha mãe, Cora, que fez o clique no Chile, na prainha frequentada por Pablo Neruda.

15 março, 2006

Lentamente*

Um estrondo assustador, ruído de vidros estilhaçados e metal se retorcendo. Calor. Umidade. Líquidos. Já não sabia quanto tempo havia passado desde que estas sensações sobrevieram. De algum modo estava encostado em uma árvore ou algo assim, sentindo um misto de prazer e quietude com o contato da terra misturado ao cheiro de vegetação. Mato. Parecia ser eu um passivo assistente de uma peça teatral, não fosse um filete de sangue – achava que era sangue – escorrendo lenta e mornamente sobre minha face. Fiquei olhando para aquilo que lembrava vagamente um automóvel e que agora, contorcido, parecia uma escultura de um ser indefinido abraçando a si mesmo. Estava sozinho. Grande novidade. Desta vez, por um instante, quis agradecer por isto. Mas só por um instante. Ao longe quase que escutava uma sirene nervosa a aproximar-se. Lentamente. Morte. Passou-me esta idéia pela cabeça enquanto ficava cada vez mais leve e sereno. Não era uma má idéia.
E eu sempre soubera disto.


(*) com esse texto estréia no blogue o meu amigo e colega de lides quintafeirísticas Miguel Grazziotin. Que mande sempre seus textos pra cá. Benvindo, Miguelito.

14 março, 2006

meu amor eu te quando


meu amor eu te quando

meu amor eu te ontem

meu amor eu te claro

meu amor eu te tanto


meu amor eu me calo

meu amor eu me canto

meu amor eu me falo

meu amor eu me imanto


meu amor eu te quase

meu amor eu te noite

meu amor eu te vaso

meu amor eu te ponte


meu amor eu escalo

meu amor os teus montes

meu amor eu inalo

meu amor teus flagrantes


meu amor eu te antes

meu amor te permeio

meu amor eu te planto

meu amor eu me seio


meu amor eu te arco

teu amor te emana

meu amor eu te marco

e tu me adriana


Fotografia: Henri Cartier Bresson - FRANCE. PARIS 1968. Boulevard Diderot.
© H. C. BRESSON/MAGNUM PHOTOS

13 março, 2006

restos mortais

O jazigo dos Menezes é aquele ali: o mais sombrio, o mais macabro, mas o mais curioso. Não há quem não pare por ali para dar uma espiada no caixote de ossos aberto, nos restos de um esquife, nas flores que inexistem, na solidão dos líquens e de alguma enredadeira que viceja ao pé da gárgula, no ângulo superior esquerdo de quem o vê de frente.

nos dias em que me uruguaiano 2

Na sombra de umbú de infância
fiz parar o homem cansado
em que me tornei. Agora, o homem cansado
tirou do bolso a semente
de um umbú rememorado. E passa o resto da vida
ali sentado encurvado,
entre os verdes de um futuro e a cor amarelo cinza
das folhas do seu passado.

11 março, 2006

"O Nescau, a ausência e os estagiários movem o mundo."
constatação minha e de luciano nessa neste sábado

09 março, 2006

Casos daqui

Quero cantar Porto Alegre
O porto que há, sim, casais
mais dos que posso ver
De longe, de perto
Você, minha doce desconhecida
Te vejo refletida em cada pupila
Dos que (hoje) tenho encontrado
E daqueles que os quero sempre
Quero gritar silenciosamente Porto Alegre
Mesmo que muitos já o fizeram
Não tive, antes, o prazer
Esse que, a partir de agora,
faço questão de ter.

06 março, 2006

Domingo no Jaconi

Pois então. Começa a segunda de novo. Depois do massacre neo-fascista de ter ido a Jaconi ontem. Já havia confessado meu amor por essa cidade - a duras penas, carece ser dito - mas a experiência de ficar no meio da torcida juventudista e sentir, literalmente, os seus bafios perversos, fez a pontuação da cidade cair um pouco em meu coração destrambelhado. E se a atitude do jogador foi racista, você devem imaginar a torcida que lhe dá suporte: racista sim, com todas as letras, e sexista, e chauvinista, e todos os piores istas que vocês podem inferir, acreditem. Nada contra o Juventude enquanto clube, nada contra a parcela da torcida que não se comporta como a maioria, mas tudo contra essa estupidez humana chamada torcida organizada. Organizada em torno do ódio contra quem não lhe é igual. Se alguém dissesse, ainda que por brincadeira, que eu era ali um gremista (a acompanhar o filho no lugar do estádio supostamente mais tranqüilo), corria o risco de ser espancado por algum idiota metidinho filhinho de papai ridículo enfiado em suas indumentárias de mastigoto covarde. Saí do estádio a faltar uns dois minutos pro fim do jogo, e já decidi que - mesmo que não torça pra ninguém - meu lugar é na torcida do outro lado, lá no barro, atrás da goleira que dá pro mato.

02 março, 2006

Micro Conto nº 7 "O Tradutor"


Em uma plaqueta,
pendurada na porta de uma casa
que havia na rua daquela cidade,
estava escrito :

- Traduzo esperanto, grego, latim, sânscrito...e outras línguas mortas.

24 fevereiro, 2006

um pouco do Rubaiyat...(*)


Eis a única verdade:
Somos os peões no xadrez
Que Deus joga. Ele desloca-nos
Para diante, para trás,

Detém-nos, de novo impele-nos,
Lança um contra outro ...
Depois um a um nos mete
Todos na caixa do Nada.






(*) ...nestes tempos intolerantes. Omar Khayyam, poeta persa (c.1050- c.1123), aqui traduzido por Manuel Bandeira, é uma dessas almas imorredouras, recalcitrantes e iluminadas. Ilustra:David Everett

preferências


Prefiro morrer de vodka do que de tédio (Maiakovski)
Prefiro toddy ao tédio (Ledusha)

Prefiro mezcal - ops - nescau.

para todos os efeitos, o relógio deste blogue continuará no horário de verão.















De Canto Grande a Macuco, em barco, dias atrás.

22 fevereiro, 2006

felicidade se acha é em horinhas de descuido *


a moldura vermelha dos óculos avisa com precisão:
o mundo hoje se enquadra melhor do que ontem.
pouco a pouco o sim brota da pele, do corpo, da boca que fala

eis que peso a medida do não.

sem que as lentes me digam, sem que o dedo apontado acuse
hoje sei que o disco risca, hoje sei do pisca-pisca, atrás dos óculos ou das ruas
lentamente, não há quem insista, nem mesmo o olhar que me faz

eis que os passos correm delicados, à sua medida e discrição.

* título fisgado pela beleza do verso de guimarães rosa

29 (*)

ofereço-te o destino dessa flor, esse antebraço

com outra flor ainda não trazida,

de onde flora lenitivo um vaso.


nas mil e uma noites do dia vinte e nove,

meu torso de perfil – aceita e prova -

meu te ofegar sob a melhor camisa

e o cordão de estrelas no nanquim do espaço.


toque de leve por sobre a blusa na noite tua

fala de dedos, luva difusa, seda de luna

pra que floresçam, apascentadas, duas verbenas.


sobrando filme na minha máquina de imitar,

uns instantâneos eu te ofereço

do coração.


e uma a uma das cem fogueiras de Escorpião.


(*) toma, minha pequena, aceita e prova deste coração que apascentaste.

20 fevereiro, 2006

OBSERVAR AS CRIANÇAS COM OLHOS INFANTIS
É A MELHOR MANEIRA DE SE RECORDAR
OS PRIMEIROS ANOS DE VIDA,
EMBORA ESTES TENHAM APRENDIDO A DESCER
DO BERÇO DA MEMÓRIA
E ESCAPULIDO PRA NÃO SE SABE ONDE...

19 fevereiro, 2006

Micro Conto n° 6 " O Anônimo"


Deu um grito estridente e longo. Como quem nasce reclamando.
Nasceu forte, sarado, corado e "rochunchudo".
Os pais, de tão orgulhosos consultaram livros, agendas, amigos e manuais para achar um nome que melhor se adequasse a eminente personalidade do forte e saudável menino.
Seu futuro dependia disso.
Depois de muita pesquisa o batizaram.
O escrivão contrariado, indeciso e vacilante, não hesita e frente a convicção da mãe honrosa, insiste dizendo :
- A senhora tem certeza? Talvez isso prejudique as futuras pretensões sociais do menino.
Ela obstinada repete :
- O filho é meu. Seu nome será Anônimo !

16 fevereiro, 2006

Casos daqui

No instante que te quero,
Tu não estás;
No instante que tu me quer,
Não sou mais sua.
No instante que nos vemos o tempo já não é marcado mais pelas horas; Os minutos do relógio pendurado em nossa casa.

15 fevereiro, 2006

Micro Conto nº 5 "O Promíscuo"

Foi uma confusão.
Entrei no quarto fechado e lá estavam, todas nuas.
Sem hesitar me joguei entre elas sedento de paixão.
Todas gritaram em uníssono :
- Agora é a minha vez !

Casos de lá

Carlota, não!
Sei que andas desiludida,
Mas com o anão – não!

Contribuições queridas de Clarissa.

14 fevereiro, 2006

A CURA

O TEMPO NÃO FOI CURA PARA TUA AUSÊNCIA
FOI MEDICAMENTO ALOPÁTICO
DOSADO GRADATIVAMENTE
DE HORA EM HORA
AMENISANDO A DOR LATENTE EM MINHA ALMA



MAS INEVITAVELMENTE
FOI PRODUZINDO SEUS EFEITOS COLATERAIS
ÓXIDO DE FERRO EM MINHAS VEIAS
ALOPECIA
CABELOS BRANCOS

O REVÉS DO TEMPO
PRESCRITO POR DEUS
TEM TARJA PRETA
É MEDICAÇÃO FORTE
ELEGIA DA VIDA
CURA ANTIGA
...MORTE


09 fevereiro, 2006

Micro Conto nº4 "A Indigestão"

Era pedante e convencido,
pensava ter o "rei na barriga".
Dito e feito :
Dia desses após uma feijoada
na casa de amigos
pediu licença e foi ao banheiro.
Defecou uma coroa.

Chamem a Teresa!

Esse pulso sincopado acompanha minha voz cantarolando Paulinho da Viola. Ando batucando na mesa, sonhando mais. E Quando bate uma saudade... Chego a pensar que ela vai fica mesmo e que não tem mais jeito.
Chame a Teresa pra mim! Chame-a pra cantar por aqui.


http://www.teresacristinaesemente.com.br/

04 fevereiro, 2006

Micro Conto nº3 "O Relojoeiro"

Eram 10:30 da manhã.
Cliente :
- Conserte este relógio, ele está parado.
Relojoeiro :
- Um relógio mesmo que parado, está certo duas vezes ao dia.

03 fevereiro, 2006

Micro Conto nº2 "O Testamento"

O eunuco pediu a atenção de todos e disse :
- Nada tenho, nada deixarei !

Fora de Hora

Entrega fora de hora
e posse fora de hora.
Quem mandou
você atrasar a hora
você apressar a hora,
você aceitar a hora
não madurada
ou demasiado madura?

O tempo fora de hora
não é tempo nem é nada.
O amor fora de hora
é como rolar a escada.

Carlos Drummond


15:39, Centro, 2 minutos e meio na minha cabeça


O Jorge Drexler é bonitão, moreno, morenos... gostei do Moreno Veloso cantando. Preço de aula de canto, preço de aula de canto. Não, não vou poder. Agora vai ser só Jean Baudrillard, Morin e sem mais tempo. Tempo, tempo, tempo, és um senhor tão bonito. What can I say to you, Bonita? What magic words would capture you? Jobim, genial. Sem mais tempo, mas mais vida. Gente nova. Gente nova, é isso. Qual o melhor caminho? Qual o melhor caminho? Vou pela 18 e dobro na Alfredo. Como eu gosto da Alfredo. Rua larga. Gosto de ruas largas, acho que é isso. Por isso gostei de Goiânia. É um fim de mundo, mas tem ruas largas. Quero voltar logo à Av. Paulista e olhar pra cima, pra cima, confundir o céu com os prédios, com tudo enfim. Caxias. Eu gosto. Não gosto. Arrancando raízes. Talvez eu sinta saudades. É bem possível. Saudades só tem espaço quando o espaço se faz sem que me dê conta. A tua presença me dói tanto, eu canto pra ver se espanto esse mal... em que Cd tenho essa música? Tenho de arrumar os CDs. À noite lembro disso. Lembro, lembro. Motorista de merda. Fecha o sinal, fecha o sinal. 40% de desconto? Queria, mas não posso. Ou viajo ou compro roupas ou compro uma geladeira. Casas Bahia. Meu destino breve para admirar Brastemps e comprar uma Electrolux, que é bem mais barata. Electro, electro lux. Luz, quero luz, sei que além das cortinas são palcos azuis. Luz, quero... Oi, tudo bom? Tudo tranquilo. Nossa, que horror que ele tá. Detalhes, detalhes. Homem de regata é o fim da bola. Qualquer tesão possível desaparece com uma regata... regata... queria praia, queria muito estar na praia. Praia não é pra mim. Eu sou do campo. Por quê né? Nhé-nhé-nhé. É, sou do campo. Nossa, que coisa gaúcha de se dizer. Ha-ha, eu campeira. Tá, tá. Não é isso. Eu queria praia, mas não as gentes de praia. Gente se besuntando na areia, gatas de academia, moços marombados, crianças infernais, famílias infelizes em dias de trégua. Bécks. O mar talvez compense. O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito. Saudades do Rio. Mar, montanha, democracia pra essas gentes de praia, espaço... espaço... então... fez-se o espaço. Fez-se a saudade. Fez-se a saudade e eis, eis o Banrisul! Porque nem tudo é o que parece... as aparências enganam aos que odeiam, aos que amam... que puta gravação essa da Elis. Última faixa do Elis, essa mulher. Tenho de parar com isso de saber a ordem dos discos. Disco, diz-que... diz que deu, diz que dá, e se Deus não dá? Como é que vai ficar...?

02 fevereiro, 2006

Micro Conto nº 1 " O suicídio"

- Quer saber? Vão todos vocês a PUTAQUEPARIU !
E tomou todo aquele conteúdo em um só gole.

01 fevereiro, 2006

teu corpo


























Teu corpo
De lábios taciturnos
Olhos falantes
Púbis noturno
Pensamentos delirantes
Mãos impudentes
Dedos elegantes
Unhas lancinantes
Cravadas em minhas costas

Teu corpo
De seios arcanos
Cabelos fulgurantes
Quadris levianos
Pernas navegantes
Língua afiada
Pescoço marcante
Sobrancelhas arqueadas

Sobre o olhar abrasante que queima meu corpo

Gravura: Portinari - 1923

29 janeiro, 2006

fui.

bom.
saindo de férias.
camila cornutti assume interinamente a condição de manda-chuva.
com são joão gilberto grudado na lapela.
aparecerei de vez em quando.
camila prometeu mudanças visuais no blogue.
que assim seja.
cuidem-se.
abraços e beijos a todos.
até depois.

26 janeiro, 2006

Que Maré

Sei que a maré não ta boa
Que a minha garoa
Ta chovendo canivete
Hoje não mais me abençoa
Esconjura, magoa
Jura que ainda me esquece
Passo, você tão a toa
Ancas que nem proa
Na maré que balança por macete
Ando enquanto você voa
Sou rei de coroa,
Cueca e soquete
Estrago, você aperfeiçoa
Ricto, caçoa
Do meu jeito de pivete
Fim de semana, lagoa
Diz que ta tudo numa boa
Em letras miúdas num bilhete
Saio, meu carro abalroa
Tráfego, a garoa
Não me favorece
Se ando sorrindo a toa
É porque me enjoa
Chorar por quem me esquece
Se te ofendi me perdoa
É que meu verbo ainda soa
Feito lâmina de gilete


24 janeiro, 2006

sobre mim e o resto do mundo



Eu vou ser sempre alguém que acha o João Gilberto muito mais vanguarda que a Bjork.
E isso explica muita coisa.

19 janeiro, 2006

CANTO BRASILEIRO

MEU CORAÇÃO É O VIOLÃO DE ESPANHA
MEU SANGUE QUENTE É O BANJO AMERICANO
A MINHA VOZ É O CELLO DA ALEMANHA
MEU SENTIMENTO É O BANDOLIM CIGANO
A MINHA MÁGOA É O SOM FRANCÊS DO ACORDEON
MEU CRÂNIO É A GAITA DE FÓLIO ESCOCESA
MEUS NERVOS SÃO COMO BANDONEON
MINHA CALMA É IGUAL GUITARRA PORTUGUESA
MEU OLHO ENVOLVE COMO FLAUTA INDIANA
MINHA LOUCURA É COMO HARPA ROMANA
MEU GRITO É O CORNO INGLÊS DE DESESPERO
MALDITO OU BÍBLICO
DEMÔNIO OU SANTO
CADA PAÍS FOI ME EMPRESTANDO UM CANTO
E ASSIM NASCEU MEU CANTO BRASILEIRO

Poema de Paulo César Pinheiro - Gravura de Heitor dos Prazeres


18 janeiro, 2006

samba do furto-descuido


foi em rainha do mar
que me bateram a carteira
documentos de uma vida inteira
se perderam nas mãos do meliante

fui a xangrilá
dar queixa na delegacia
um tira fumando me disse
é normal, é comum
e outras besteiras

agora meu documento
é um boletim de ocorrência
quem sabe um dia então
o nordestão devolva minha carteira

aqui no fim do mundo
janela aberta é furto-descuido
(todo mundo)
agora meu documento
é um boletim de ocorrência
(só eu)

16 janeiro, 2006

Delicado protesto

Esse pátio não quer meus brinquedos espalhados por aqui
Faz dias que tento entrar e nada
Na birra convido pra brincar lá em casa
Mas só por hoje
porque a sala é simples e ingênua(?)... E a timidez ocupa muito espaço

www.fotolog.net/unu

Horizontes

Lhe observando, um amigo fala :
- Pare de perseguir o horizonte é inútil ! Você nunca vai conseguir !
De longe ele grita :
- Estás enganado, você mente...
E lá foi ele, despreocupado, sem pretensões, correndo, saltando...

continuou perseguindo o horizonte.

as canções que tocam dentro *


Antinome
(Chico César)

à noite aguda
ouvi um deus me acuda
como se aqui fosse a croácia
e era um assalto na farmácia
alguém necessitava
gaze e merthiolate
ob e chá mate

chamo-te pelo antinome, pai
quando o invisível
some e se esvai
em vinho que não bebo
em pão que não comerei jamais

no dia longo
sol nascendo e sol se pondo
como se aqui fosse o saara
é ceará e mais deus não dera
oásis quase nem
ninguém sequer espera
resseca gente-fera

a noite morre
ouço um quem me socorre
como se grozni aqui fora
e era alguém que ia embora
e o outro que ficava
implorava companhia
perdão, misericórdia

chamo-te pelo antinome, pai
quando o invisível
some e se esvai
em vinho que não bebo
em pão que não comerei jamais

(*) bolero com ares de milonga desse criativo compositor, cantada por ele e pelo outro Chico, o Buarque, em "Respeitem meus cabelos, brancos". Todo o CD é bom. Ando louco pra ouvir o recém-lançado "De uns tempos para cá", que segundo o próprio Chico César teve inspiração no antológico "Ramilonga", de Vitor Ramil.

o sumiço do Augusto

Augusto sumiu. Onde andará Augusto? Debaixo de algum ligustro apascentando as pestanas ou numa beira de rio entre aguacis e lixiguanas? É, mas Augusto sumiu. E nem notícia do homem, lá se vão duas semanas.
Onde andará Augusto? Não sei se em Porto Alegre ou no bairro Exposição, mas Augusto é temerário, sopra raio, eviscera dicionário. Na ponta do dedo mingus arrasta um tubarão.
Lá detrás de um asteróide, numa ilha do mar Báltico, no fogo azul do poema, Augusto pisca e acena, entre morsas, potestades, onde as moréias serenas.
Deve estar é numa boa, só que nos causa saudade quando some assim, cobarde, sem nem sequer um postado, sem nem sequer comentário, recado em papel de pão.
Onde andará ô Enésimo? Alô...Câmbio?
Ilustração: Magritte

13 janeiro, 2006

ontens*

entrados em kombis brancas lá longe se vão os sábados
lentos vão os relentos em anteontens entrados

donde estarão os ventos revés de chãos esticados
sertão ventos bolorentos verbos inventos gendrados

aos tombos irão os átomos em caldo em chão em tornados
trarão ontens velejando em mares nunca'dentrados

longe se vão paredes neste entorno raspado
em ombros que se confrontam sobre o ontem inventado


(*) extraído, como a um dente cariado, do meu inédito "Anel postiço em merengue", Idem Ibidem Editores, Bairro da Virgem. Ilustra o postado: Jackson Pollock.

E eis alguns dos meus cliques numa tarde de céu colorido






Versos de Inútil Paisagem (Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira - 1963)

Pastelaria



Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tantas maneiras de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra




Mário Cesariny (Lisboa, 1923, - )

guache


Não consegui, Carlos, ser gauche na vida. Fui e voltei e as ruas - todas - em mão única. Certas tardes de chuva em Florianópolis, em um desterro auto-imolado, me ajudaram a ficar assim: fui ser guache, aguado, aquarela. Ou guacho, como se diz na campanha daqueles filhotes, Carlos, que desmamam prematuramente.

Foto: Hiroshi Watanabe, Equador, 2003

11 janeiro, 2006

O mundo estava no rosto da amada

O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

10 janeiro, 2006

...Paris*



- Vontade de ir a Paris de novo...
- É? Tu vais sempre a Paris?
- Não, só vontade de novo...


(*) piada contada uma noite dessas pelo amigo Oscar dos Reis, com sua indefectível vocação para o humor lacônico e docemente cruel.

09 janeiro, 2006

meia noite e dezessete


- Desliga a luz aí do teu lado? Ah, e agradece o convite, mas despista pra mim? Tu sabe Luiza, eu nunca fui bom em falar assim, em público. Me atrapalho todo. Meus pensamentos são relativamente bons, no máximo, quando permanecem dentro de mim mesmo. Não sei externar essas coisas. Com o tempo é que tenho aprendido a me dar, me doar, estabelecer algum tipo de relação com o mundo exterior, mas daí a conseguir falar pra mais de cinco pessoas durante uma hora é outra coisa. Tu sabes que o Tom Jobim, a quem teu pai atribui teu nome, dizia que a complicação da vida é que a gente tem de ser o síndico da gente mesmo. Não dá pra apelar sempre pro outro, chega um tempo em que os nossos problemas são nossos, por mais que a gente possa compartí-los. É louco isso, né Luiza? Porque eu sei que eu posso contar contigo, mas tem coisas que só eu posso resolver e aí muito do nosso romantismo cai por terra. Meu romantismo, da mesma forma que eu o alimento de forma crescente, seja lendo Neruda, seja olhando os Jasmins da esquina da Humberto de Campos eu o destruo quando vejo a senhora mal educada chupando o pêssego sem pagá-los no caixa de supermercado. E isso é idiota, eu sei. Eu não sou grande como tu pensas, eu me incomodo com essas coisas, a vida me irrita com cacos demais... é o celular que não funciona, é a capa da Veja desta semana, é a tinta da impressora, é o taxista de direita, é o PFL jovem, é o Caetano dizendo bobagens, é a tua mãe enchendo nosso saco, é teu irmão comendo a coxa da galinha, é o meu pai hiponcondríaco, é o teu jeito de passar batom... e eu já te disse o quanto o teu jeito de passar batom me irrita, Luiza. Eu, por mais que queira que tu me saibas por inteiro, não quero ter que detalhar a minha conta do banco, eu não quero que tu tenhas sempre a clareza de que eu vivo pra não estar no vermelho, de que eu quero te dar coisas, de que eu quero nos dar coisas, eu não quero esmiuçar todos os meus passos, por mais que eu queira que tu saibas como eu quero andar pelo mundo. Eu sou complicado, né Luiza? Com o Pedro era assim também? Tá, desculpa, desculpa, nós prometemos não falar de ex-amores. É que ex-amor também não existe... amor por mais que se vá, acaba ficando. Tu entendes o que quero te dizer? Talvez tu fiques magoada por eu te dizer isso, mas é verdade. E a verdade também é que eu me apaixono e desapaixono com uma facilidade incrível, Lu. Nunca te chamei de Lu. É tudo tão recente... mas a gente também combinou de não nos chamarmos por apelidos toscos, por mais vontade que eu tenha de te chamar de benzinho ou chuchu, de vez em quando. Mas não te preocupas. Nós dois temos plena consciência do ridículo da paixão. E eu te admiro sobretudo por isso, porque tu tens noção das pieguices, não as comete a ponto de beirar o constangimento mútuo e ao mesmo tempo tu te entregas. Isso é tão bonito em ti... sobretudo porque isso não tem psicólogo que ensine ou oriente. Ou tu te jogas para as coisas ou tu passas a vida com a marcha ré engatada. Não posso falar em ré engatada que me lembro do vencimento da carteira de motorista. Tu me lembra disso essa semana, certo? Eu tenho pavor dessas burocracias do mundo, pagar luz, ir no banco, comprar alpiste, negociar o aluguel. Eu sou um pulha, Luiza. Nunca serei um bom sindíco de mim mesmo. Eu nunca sei se uso eu ou uso mim. Como é que tu se apaixonou por mim? Ahn? Luiza? Lu? Chuchu? Dormiu.

um sonho em alicante



em teus cabelos de murta
esponja das ecolines
nuns bicos de pena abrupta

peônia que avista a Virgem

em teus cabelos de flandres
os dardos brandos de um anjo
perfume de cardos brancos
num disco de joão donato

em teus cabelos de plâncton
num boulevard de alicante
arrimos de dor dormindo
que o sono do mar entrance

pequenas ilhas de felicidade



'(...) Podemos não encontrar um sentido de vida, um sentido para a vida, o caminho célere para a felicidade ideal, como as teologias descartáveis prometem de porta em porta. Mas existem pequenas ilhas de felicidade, por onde vamos saltitando como náufragos perdidos. São estas ilhas que dão alento no caos que nos consome. O rosto de Mariel Hemingway em "Manhattan" --ou o rosto da pessoa que amamos, tanto faz. Os discos de Django Reinhardt em "Poucas e Boas" --ou os discos que fazem a trilha sonora das nossas vidas, tanto faz. E, como nesse "Hannah" que me deixa num estado de felicidade irreal, os poemas de e.e. cummings que descobri devido ao filme. Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão generosas como Woody.(...)'

'(...) Os filmes de Woody Allen são uma família a que se pertence: ninguém deseja mudanças radicais ou desaparecimentos radicais. Desejamos apenas que seja outono lá fora e que as histórias, conhecidas e até repetidas, sejam embaladas por um fio de jazz.'

07 janeiro, 2006

Vanda



Ernesto, entre tenores não sabe cantar - murmura.
Vanda anda e nada.
Ela é uma elipse.
Ele é a apótema dela.

06 janeiro, 2006

utilidade pública

Resenha do novo (e belo) disco do Aldir Blanc: aqui.

canção*



eu queria fazer uma canção
que detivesse a fúria de dois mil tufões
que te saltasse aos olhos
e te deixasse nua
como uma benção

mas não sei fazer uma canção
que não tenha dentro a palavra ilusão
que não tenha dentro a palavra solidão
que não tenha dentro a palavra coração

e se esta canção se achar

perdida lá no alto-mar
saída terei senão navegar
e no rumo dela hei eu de errar

em cada grão de areia do meu coração
em cada onda branca desta solidão
e nos vãos coqueiros da minha ilusão
verei surgir certeira a velha canção
que desde sempre esteve
furtada selada postada

no teu coração



(*) essa é pra Adriana, meu amor; como não poderia deixar de ser; aquela que fez rebrilhar em mim o sol do poema; a moça da Ernesto 'Che Guevara' Alves, um três quatro quatro; a namorada de pátios, canteiros e hortas de rúcula; endereço dos meus rudes poemas; caixa-postal do meu coração; poema-canção do próximo livro, aquele do anel cravado no merengue, ou no sorvete-seco; descarada e sinceramente inspirado em Francis Hime & Vinicius de Moraes, "Meu coração".

noturno caxiense*



muito conhecimento
mas nenhuma compreensão,
já dizia o ladrão de cadáveres
ao anatomista.


(*) *.

diavolino*

à porta de uma casa
hei de bater sonolento
casa que nem suspeito
o que lá se move dentro

(se é casa de prazeres
com arabescos no ventre
se é coração de pedra
ou asa de pensamento)

à porta de uma casa
em que jamais entrarei
hei de parar um momento

tocarei com medo a pele
de um ser de bronze ardente
face de fauno ou guepardo
ser de alaúde tangendo

cara de cão daquele
que nos fulmina por dentro

por dentro onde ignoro
qual a mortal ternura
que lhe assoma o ossamento

à porta de uma casa
baterei o ombro lento

bem aberta a boca e o pálato
como uma rosa estiolada
no bronze de Giambologna

por trás dos olhos me alveja
cenho de um monstro inocente


(*) Em meu inédito ma non troppo volume de poemas "Anel Postiço em Merengue" (Morador de Lourdes Editor, 2006 talvez). Giambologna (1529-1608), escultor maneirista de origem flamenga, um gênio. Vi essa escultura ("Diavolino Portabandiera") em Curitiba, na Casa Andrade Muricy, na exposição "Florença: Tesouros do Renascimento", em 1999, e ela me impressionou violentamente. Pena não ter encontrado imagem mais detalhada, pois o bronze do artista é implacavelmente belo. Giambologna, aceita homenagem singela desse teu humilde escriba.

02 janeiro, 2006

quadra...de virada...

Fui eu em 2005
um plebeu em teto de zinco,
espero que 2006
não seja um ano de reis.

Quarteto em Decassílabo para Soneto futuro


Já sabem todos desta honrosa arte
Que ser poeta hoje é uma façanha
Do rol de empregos ele já faz parte
Alguns o são com muita artimanha

(para Fabrício Carpinejar e Gilberto Mendonça Telles )

quarar*


quarar as toalhas brancas do porvir
quarar as roupas brancas do sonhar
quarar as flores provas de pedir
quarar as flores novas de ganhar

quarar a aquarela de um jasmim
quarar as frutas verdes do pomar
quarar a pedra pomes do jardim
quarar água furtada de alguidar

quarar apenas que de pálido deixar
quarar da cor a desmaiar em teu vestido
quarar mesmo a quaresma do querer
quarar mesmo a soleira de um sentido

quarar de tuas idéias o franzido
quarar de tua colcha o se deitar



(*) em: "Anel postiço em merengue" (inédito, 2006), Anzol da Lua Editorial, bairro onde apareceu a Virgem, Caxias do Sul, terceiro planeta a partir da pequena estrela branca que é a causa da existência de vida aqui e também do poema em questão; ilustra: aquarela de Claire Cowie, Village XXII, 2005, @ http://www.jamesharrisgallery.com/