há que atravessar-se a praça Dante
asas nos pés de um mercúrio causticante
há que atravessar-se a praça Dante
direção à catedral bombardeada flamejante
há que atravessar-se a praça Dante
a mente na amada nos braços da amada
nas coxas da amada seu beijo arfante
há que atravessar-se a praça Dante
num velho all-star botinha um mesmo terno casaco
como em Guernica Roca Guermantes
há que atravessar-se a praça Dante
e nos ferros do astro tédio
rimá-la em manto sem noite
limá-la com sombra açoite
há que atravessar-se a praça Dante
e dela atravessar-se delirante
enterrar-se nos canteiros enlouquecer-se de rosas
enternecer-se nos ligustres fal(t)antes
há que atravessar-se a praça Dante
com mãos prostitutas com rugas ciganas
com lábios moicanos com nervos de Andes
há que atravessar-se a praça Dante
como quem escava um túnel
como quem decifra a murta
como um balde de Aqueronte
há que atravessar-se a praça Dante
sem não mirar nos olhos do poeta um antes
os olhos da amada y su olor de Cuba
sua raquete seu bronze de urze
e a estrela nua em seu nu sextante
(*) do meu inédito "51 poemas e um mosquito morto", no ante-prelo de uma editora do futuro; ilustra este postado "Ciudad de Levedad", do mexicano Jesús Lugo.
Um comentário:
atravessou minha vida
virou só sentimento
diria uma adélia sem dante mesmo...
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